"PLANTANDO ESTRELAS"
uma história do tempo em que a terra aprendeu com o céu
Escrita e série de desenhos, antotipias e instalações desenvolvida para Residência Habitar os Vínculos, da Terra Saúva 2025.
uma história do tempo em que a terra aprendeu com o céu
Escrita e série de desenhos, antotipias e instalações desenvolvida para Residência Habitar os Vínculos, da Terra Saúva 2025.
"Escutando um lugar onde a Terra sonha com pedras guardiãs do elemento fogo, ouvi dizer que é preciso caminhar no silêncio dos pés descalços, porque o chão escuta tudo. No tempo em que o mundo ainda se organizava entre céu e terra, chamavam este território, marcado pelo vento que sopra três vezes antes de mudar o destino, de Ybytu-Katu.
Referenciando os bons ventos que nos sopram segredos. Aqui, o Vento sopra porque é sua natureza, mas também por seu próprio desejo. Foi ele quem escreveu, com areia, seu deserto vermelho. Foi ele quem ensinou à Água a subterraneidade, à Pedra a erosão, ao Fogo o calor.
Tudo começou quando as primeiras formigas desceram do céu. Não eram formigas como as que conhecemos hoje — eram viajantes de outros sistemas, pequenos corpos de brilho mineral que cruzavam as distâncias entre galáxias nas costas dos cometas. Elas desciam devagar, deixavam rastros luminosos e, com suas bocas miúdas, carregavam fragmentos de estrelas cadentes.
Esses seres nos ensinaram a arte de plantar o cosmos dentro da Terra.
Os antigos diziam que cada formigueiro espelhava uma constelação. Não por acaso, elas formavam mapas e bússolas — como um acordo secreto entre céu e chão. As galáxias imitavam as colônias, e as colônias imitavam as galáxias. O que acontecia em cima repercutia embaixo.
Outros sussurram que elas guardavam, entre suas patas, um pequeno espelho onde se via a primeira imagem do mundo. E assim, as formigas se tornaram agricultoras do firmamento, cuidando dos astros como quem cultiva raízes invisíveis entre a Mata Atlântica e o Cerrado.
Neste mesmo tempo, trabalhavam coletivamente com os pássaros — sendo eles os primeiros agricultores do feitiço, que espalhavam sementes pela floresta. Esses parceiros davam vida a árvores flutuantes, de tronco rígido e raízes de penas que pairavam no ar, como se a gravidade pudesse ser manipulada pela magia dos seres voadores.
Eram oferendas às entidades dos céus, por terem enviado a sabedoria das formigas-anciãs ao nosso mundo.
Entre essas árvores flutuantes havia uma especial: a embaúba. Ela era uma espécie de aldeia suspensa, onde os pássaros-feiticeiros se reuniam para trocar encantamentos e traçar os destinos das sementes. A embaúba era sempre uma das primeiras a brotar quando a terra era ferida, abrindo caminho para a regeneração secundária dos biomas. Por isso, tornou-se aliada das formigas e dos ventos na regeneração do solo, convocando o retorno das matas.
Por incontáveis anos-luz, essas formigas viajaram de planeta em planeta. Levavam estrelas como quem leva alimento para a sobrevivência, mas também como quem leva recordações, para não se esquecer de onde veio. As estrelas eram bibliotecas portáteis — carregavam nelas os registros das luas. Era por essas estrelas que as formigas faziam as pazes entre os mundos: germinavam a terra adormecida com sopros de outras ecologias.
À noite, se alguém tivesse paciência e ouvidos atentos, poderia ouvir o trabalho incessante dessas pequenas construtoras. Dizem que é delas a autoria das cavernas e rios ocultos. Elas sabem onde repousa a água sonhadora. Sabem, ainda, onde adormecem os vulcões.
Em Ybytu-Katu, contam que foram essas formigas que reverberaram a formação geográfica daqui. Seus túneis se estendiam como rios de fogo sob a superfície, e diziam que seus corpos vibravam em consonância com os corações de pedras vulcânicas que ainda ardiam sob o chão, formando o que chamamos hoje de basalto e arenito.
Quando uma estrela morria no céu, uma nova cratera se abria na Terra. Quando o céu chorava meteoros, as formigas faziam nascer fogueiras, preparando o território para algo que só elas sabiam.
Outros povos, mais antigos que o nome das cidades, acreditavam que as formigas eram as guardiãs do equilíbrio entre o tempo das pedras e o tempo das estrelas. Por isso, antes de colher, era preciso observar. Antes de plantar, consultar. Porque, por onde elas caminhavam, o futuro já havia passado. Onde elas se reuniam, algo invisível estava prestes a nascer.
Aqui-agora, após um processo de apagamento das culturas originárias que habitavam esse território, denominaram-no como Botucatu — e, mesmo sob a violência da grafia da língua nativa, o espírito dos bons ventos ainda sopra até o presente. Terra onde as árvores, de longe, parecem mortas e, de perto, pulsam um tipo de vida subterrânea, as saúvas continuam seu trabalho.
Indiferentes à pressa humana, elas cantam em coro:
– “Quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro!”
Carregando folhas como suas ancestrais transportavam memórias de outros planetas, construindo palácios invisíveis sob nossos pés. Arquiteturas que ninguém vê. Túneis que desenham espirais que imitam os anéis de Saturno, corredores que conduzem ao centro exato onde tudo começou.
Elas sabem o caminho. Sabem como cruzar do visível ao invisível, como plantar uma estrela, como colher um cometa. Sabem que tudo o que nasce na Terra já brilhou, um dia, em alguma outra parte do universo.
E, se olharmos o céu com atenção, ainda podemos ver que o traçado das estrelas repete o desenho oculto desses formigueiros. Porque a agricultura astral não cessou, apenas mudou de ritmo. É por isso que, ainda hoje, quando alguém se deita sobre a terra e fecha os olhos, pode escutar a leveza de uma folha e o peso de uma galáxia."
Tayná Uràz
julho, 2025
Desenhos, 01 a 08
Nanquim sobre papel
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Nanquim sobre papel








Antotipias, 01 a 10
Impressões em pigmento de urucum
Impressões em pigmento de urucum










Instalações
Pintura de geotinta e giz pastel de urucum + instalações para projeto expositivo do ateliê aberto.
Pintura de geotinta e giz pastel de urucum + instalações para projeto expositivo do ateliê aberto.









