"TIMBÓ"
 a palavra-feitiço que antecipa o desejo 

Escrita e série de desenhos e instalação desenvolvida para Residência ELÃ, do Galpão Bela Maré, 2025.



"Brilho intenso se acendeu na escuridão da montanha, uma estrela é plantada na terra. Como se o céu a esquecesse e deixasse cair, como se a terra a pedisse de volta. Eles estavam lá, sentindo o chão pelas solas dos pés quando viram um clarão abrindo a serra, era a neta de coração atlântico-estelar sobre aquela pedra.

Dentre tantos sonhos, lembro de te contar sobre as formigas anciãs da floresta invertida que caminhavam ao contrário do vento e traziam histórias do que ainda não aconteceu. Mas naquela madrugada, sem ao menos ver seus olhos, meteoros rasgaram o céu afiando as lâminas das flechas vindas de outro tempo.

Você lembra que te falei disso, ou talvez eu tenha sonhado que te contei?

E eu fiquei pensando: se a gente conseguisse plantar estrelas, será que as nossas terras seriam demarcadas? Se eu jogasse no céu as sementes que carrego no bolso, poderíamos atravessar essa dimensão para um território grande o suficiente para nossa fome não morder ninguém?

Aqueci o vento antes que ele congelasse o tempo. Fiz isso com as mãos, raspando palma com palma, chamando o calor antigo que o avô Magma me ensinou nos sonhos. O sopro dele cheira a colheita feita. Ele fala comigo quando quer, não quando eu peço. Desde pequena, sabia que certas coisas não se explicam, só se pressentem.

Você pergunta como um coração úmido atravessa o cerrado sem secar? Eu respondo: ele bebe do que ninguém vê. Só que quando esse coração cai num rio estrangeiro, às vezes esquece de respirar. Tropecei nas minhas próprias correntes e parei aqui onde o tempo se dobra para trás, feito couro enrugado de bicho abatido.

Em frente a Baía, eu te contei sobre os ancestrais que pescavam com flecha de takûara. Quando as lanças deslizavam sobre a água, carregavam a memória do peixe. Timbó enfeitiçava. Sempre ouvi isso desde cedo, e cada vez que escutava, mais água se acumulava nos nomes, e mais mangues eram aterrados.




Minha mãe me chamava assim, sem nem saber o poder que carregaria. Talvez fosse pela sombra do cabelo, mas ela já sabia, nem precisou ver. Como quem retoma a uma língua que sempre soube falar. Mesmo antes da invasão se completar, quando as raízes são arrancadas, alguma parte do corpo precisa encontrar outro solo, mesmo que seja líquido.

Quando nos jogaram no mar, aprendemos a nadar; eu só ainda não te vi mergulhar.

Boiar sobre água doce e limpa é a expectativa ideal do desejo mental da consciência para entender que não se mede a distância entre as estrelas. Elas já morreram, só reconhecemos borrões, como se ainda estivessem ali para serem desenhadas. Talvez seja o reflexo dos peixes-espírito, os guardiões extintos, mexendo no brilho do fundo da água. Talvez sejam eles lá embaixo, criando constelações em segredo, esperando o dia em que o território vai ressurgir.

Eu só sei que, às vezes, quando caminho perto da água, sinto uma escama fria tocar meu tornozelo. E logo depois o brilho se espalha como aquele da montanha. Então eu entendo: eles não viraram peixe pra desaparecer. Viraram peixe pra continuar sendo território. Para continuar circulando por baixo de tudo, desviando do que tentaram apagar. Para lembrar que nenhum corpo é completamente capturável quando se aprende os caminhos da água.

Há peixes que não se pescam. São parentes. Espíritos. Agora só nos resta a ilusão, a miragem, a confabulação: se pudéssemos eternizar o brilho no fundo da terra, poderíamos habitar esse território sem violência?"




Tayná Uràz,
dezembro, 2025




Timbó
Geotinta, giz pastel de urucum, giz pastel, miçangas e penas






"peixe-espírito" I, II, III
Técnica mista sobre papel







TAYNÁ URÀZ.         2024.              brasil.